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Sempre Carmen
Integrante do legendário Bando da Lua conta como era a vida com a maior estrela do Brasil
Araújo Lopes
Era mais uma noite de shows no luxuoso Embassy Club, de Nova Iorque, quando o grupo vocal brasileiro Anjos do Inferno, de muito sucesso no Brasil na década de 40, recebeu a notícia: teriam a visita de ninguém menos do que Carmem Miranda, a pequena notável, a mulher a quem Hollywood prestava reverência, aplausos, adoração, e que este mês é lembrada pelo seu centenário de nascimento. Seu estilo havia conquistado o Rio de Janeiro, o Brasil, os Estados Unidos, e depois o mundo. E naquela noite, estaria na platéia.
A lembrança desta noite está mais viva do que nunca no último remanescente de alguns dos grupos vocais mais importantes da história da música brasileira: José Ferreira Soares, o Russinho do Pandeiro, (na foto, ao lado de Carmen, segurando seu braço) que tomou parte dos Namorados da Lua, dos Anjos do Inferno e depois do Bando da Lua, que acompanhou Carmem por duas vezes. A primeira, em 1939, e em sua segunda formação, em 1948. À Russo pertencem memórias e experiências da vida e do trabalho com Carmen, que ajudam a compreender um pouco mais da grande artista que foi Carmen Miranda.
Nesta época, a formação do Anjos do Inferno era: Lúcio Alves, voval, Walter Pinheiro, no tan tan, Harry Vasco de Almeida, piston nasal e cabaça, Aluisio Antunes, violão tenor, e José Ferreira “Russo” Soares no pandeiro. Na sua rotina de shows, os Anjos do Inferno incluíam, como um dos quadros do espetáculo, uma imitação de Carmen. Russo usava um turbante com bananas, frutas na cabeça. Naquela noite, os companheiros insistiram para que ele fizesse o número, com Carmen na platéia. A princípio, o músico resistiu, mas depois aceitou. E Carmen adorou. “Ela ria muito de meu trabalho, ficou muito feliz, lisonjeada. Ela era assim, uma simpatia”, afirma o músico, saudoso. Depois, Carmen os convidou para se sentarem à mesa. “Ela era muito simples como pessoa, encantadora. Cada vez que ria, seu sorriso tomava conta do ambiente. Dominava a todos, não se recusava a dar autógrafos a ninguém, atendia a todos os fãs, tirava fotografias, tinha classe, era muito bem vestida. Acho que até hoje os brasileiros não têm noção da grande artista que ela era”, diz Russo. Carmem despediu-se do grupo e voltou para Los Angeles. Um mês depois, voltou e fez o convite: fazer parte de seu show. Claro, todo o grupo aceitou o convite, que mais parecia um sonho.
Foram todos com ela para Los Angeles, onde a grande estrela Carmen Miranda vivia com os ricos e famosos de Bevery Hills. A rotina de trabalho era dura: mudança e modernização de todo o repertório, ensaio de 25 músicas, acerto de vocais para a inserção de uma vocalização mais moderna. Trabalho de oito da manhã até às onze da noite. Mas em um ambiente de luxo. Uma mansão com lareira, piscina, freqüentada por estrelas do cinema mundial. Na garagem, um Cadillac e um Lincoln conversível. Todos empenhados no trabalho, e com Carmen feliz, aprovando todas as mudanças. Ela conhecia os Anjos do Inferno de nome, do sucesso no Brasil, e confiava no trabalho de seus músicos. Depois de quase um mês e meio de ensaios,uma surpresa: Lúcio Alves, o crooner do grupo, o mesmo que tempos depois faria sucesso em carreira solo, disse que teria que voltar ao Brasil, pois sua mãe estava doente. Foi uma decepção para todos. O grupo então lembrou-se de Aloysio de Oliveira, que vivia no Brasil, tinha feito parte da primeira formação do Bando da Lua como crooner – tendo, inclusive, um romance com Carmen – e era o dono do Bando. A idéia era chamá-lo a integrar os Anjos do Inferno no lugar de Lúcio Alves, como cantor principal. Ele aceitou de pronto, e os ensaios recomeçaram novamente, desta vez com Aloysio. Depois de tudo pronto, a estréia. E não como Anjos do Inferno: todos concordaram em reativar o Bando da Lua, praticamente uma lenda entre os grupos vocais da época, que receberia então sua segunda formação. O nome reconhecido no mercado americano ajudaria nos shows.
Era tempo de marcar época, de fazer história mais uma vez. A estréia de Carmem Miranda com o novo Bando da Lua ocorreu em 21 de dezembro de 1948, no Cassino El Rancho Vegas, em Las Vegas. O teatro estava lotado. “A recepção dada a Carmen foi incrível. Como eles gostavam dela. E que grande artista estávamos trabalhando, um fenômeno inigualável”, lembra José.
Carmem Miranda arrebatava os palcos americanos mais uma vez, mais uma fase na vida de uma cantora que, desde o início de sua carreira soube que estilo e talento eram o que importava. E Carmen tinha os dois de sobra. Em todas as suas gravações, é possível identificar a cantora competente, a intérprete inspirada e espirituosa, mas também a menina Maria do Carmo Miranda da Cunha, que ao lado da irmã Aurora, ouviram e se apaixonaram pelos sambas que ouviam no Rio do início do século, dos bambas do Estácio, da Lapa, da Cinelândia. Basta ouvir suas primeiras gravações, as gravações dos anos 30, que a Carmen de então, a Carmen Miranda de sempre, está lá: seus trejeitos, maneiras, bom humor, fazendo interjeições e comentários espirituosos e charmosos nas canções. Basta ouvir “Triste Jandaia”, canção-toada de Josué de Barros, descobridor e padrinho musical de Carmen, grava em 1929, para ter a certeza que aquela cantora permaneceria para sempre, pois era nova e era única, conquistando o público com seu imenso carisma. A menina desta época jamais desapareceu. Ao contrário, Carmen soube usar seu charme em favor de sua atuação artística, aliando voz, técnica vocal e um repertório escolhido com cuidado e acuro. Profissional sempre, e sempre a menina Maria do Carmo.
Carmem então seguiu em excursão com o novo Bando da Lua pelos Estados Unidos, e por conviver com ela por tantos anos, o testemunho de José Fernandes ajuda a conhecer um pouco mais a grande estrela Carmen Miranda. Era dedicada aos seus músicos, os pagava bem, e tratava a todos como uma mãe. Tratavam-se todos como uma família. Carmem os chamava a sua casa, onde estava com a irmã, Aurora, e o sobrinho, a mãe, Maria. Nos intervalos dos shows, a primeira coisa a fazer era tirar o turbante, pesado com todos os adereços e enfeites. Tirava tambérm o vestido e ficava apenas de calcinha e sutiã. O bando da Lua entrava, comentavam a reação do público, as músicas, o repertório, como se Carmen estivesse com roupa de gala. Se um deles ficava doente, ela vinha com comprimidos de aspirina. Certa vez, conta Russo, Carmen perguntou de que atriz americana ele mais gostava. “Lana Turner”, respondeu o músico. Dias depois, Russo estava em casa quando Carmen telefonou. Pediu que fosse a casa dela depressa. Ele perguntou o motivo, mas ela não revelou, só pediu para se apressasse.
- Nós, os músicos dela, só entrávamos pela porta da garagem, pois era mais rápido entrar na casa. Naquele dia, a pota estava fechada, tive que dar a volta e ir até a porta principal. Quase desmaiei quando vi quem abria a porta pra mim: Lana Turner! – lembra.
Mas, para Russo, o mito criado em torno de Carmen é composto de algumas falsas características. A história de Carmen ser desbocada, por exemplo, ele nega. Segundo ele, ela dizia palavrões sim, mas em ocasiões naturais, como quando tomada por acessos de fúria, como todo mundo. Carmem era cantora de sambas e adorava o ritmo brasileiro, basta ver a influência que tiveram em seu repertório Dorival Caymmi, Ary Peixoto e Assis valente. Mas, conta Russo, Carmen era romântica, e adora mesmo um samba-canção. “Ela gostava muito do Silvio caldas, suas valsas, amava quando ele cantava, eram grandes amigos”, diz. Outro clichê ligado ao mito Carmen Miranda que Russo se empenha em combater é o que afirma que a baiana estilizada de Carmen teria, de alguma forma, arranhado a imagem da verdadeira baiana. “Isto é um absurdo, que diz isso é idiota. A baiana da Carmen era linda, ela se esmerava pessoalmente com suas roupas. Colares de US$ 3 mil, US$ 5 mil. Tecidos finíssimos. Era uma grande homenagem à baiana brasileira”, argumenta.
Nesta segunda fase de excursões nos Estados Unidos, Carmen Miranda e a segunda formação do Bando da Lua colecionaram grandes êxitos em seus espetáculos. Las Vegas, Filadélfia, Boston. Em Buffalo, Nova Iorque, o show comandado por Carmen contava, além do Bando da Lua, com um menino negro que cantava, tocava piston, sapateava e tocava bateria. A criança, que já mostrava em sua performance os traços de um grande artista, era Sammy Davis Jr, em uma de suas primeiras aparições. Depois, o grupo seguiu para Nova Iorque para participar do show mais popular da recém-nascida televisão americana, o Milton Berle Show, da rede NBC. A América parava para assistir ao programa. Milton fez uma imitação memorável de Carmen, se vestindo como ela. No Teatro Palladium, em Londres, arrebatou o público britânico, incluindo a família real, presente da platéia. Os filmes, foram incontáveis no mercado americano, uma rotina a qual Carmen começara no início de sua carreira, em 1925. Os sucessos, da mesma forma, inúmeros. Sempre misturando o português com o inglês. “O que as pessoas não entendem é que era impossível Carmen não cantar em inglês. Ela era contratada por americanos, eles pagavam nosso salário. A platéia era americana. Ainda assim, ela conseguiu mesclar os dois idiomas”, afirma José Ferreira. E fez muito sucesso com “Cuanto le Gusta”, “Baião Ca-Room Papá”, este da dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, “Yipsee-i-o”.
O clima entre a nova formação do Bando da Lua, da qual José Ferreira Soares tomou parte, e Carmen Miranda permaneceu um sonho quase até o final. Russo lembra que o ciúme de Carmen atrapalhou um pouco em certos momentos de convívio entre os artistas. Principalmente porque, nesta fase, o Bando da Lua não era o conjunto vocal de Carmen Miranda, apenas integrava seus shows. Mas Carmen não tolerava quando outros artistas, principamente americanos, queriam que o Bando da Lua trabalhasse com eles também. E isso aconteceu com pelo menos três grandes nomes da música nos Estados Unidos: Peggy Lee, Bing Crosby e Louis Armstrong que, ao verem o Bando em suas apresentações, convidaram o grupo a integrar suas apresentações ou para gravar músicas em seus discos. Carmen não admitia, era ciumenta, exigia exclusividade.
Difícil identificar exatamente porque e como Carmen Miranda se tornou o que era, mas, para Russo , que hoje no México, os brasileiros ainda não têm a exata dimensão da grandeza de Carmen. Muito devido a total falta de empenho das autoridades em preservar e homenagear sua obra. É preciso ouvir suas músicas, seu jeito moreno de cantar, para entender porque ela viverá para sempre. Nas palavras de Carmem Miranda, a imortalidade: “O que é ser imortal? Acredito na alma, na reencarnação...mas ser imortal, viver para sempre. Seria a glória!”
“A juventude vai salvar o carnaval”
João Roberto Kelly, criador de marchinhas inesquecíveis, celebra a carreira e faz música para Barak Obama
João Roberto Kelly é o compositor mais popular da festa mais popular do Brasil: o carnaval. Se você já esteve em um baile de carnaval, ou alguma vez na vida já viu, mesmo de longe, confetes ou serpentinas, já deve ter ouvido estes versos: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Será que ele é?”. Ou “Colombina, onde vai você? Eu vou dançar o iê iê iê!”. Todas são de Kelly, mestre das colombinas, dos pareôs, dos pierrôs, das miçangas e das havaianas, das melindrosas charmosas, dos confetes e serpentinas. A novidade é que, depois de 50 anos de carreira completos no ano passado, ele está animadíssimo para a folia, e compondo muito bem. E vaticina: a juventude vai salvar o carnaval!.
“O que eu estou vendo é uma grande reação das marchinhas e dos blocos. As marchinhas voltaram nos blocos, que estão por aí ganhando as ruas. Essa garotada que tem hoje entre 18 e 30 anos é que trouxe isso tudo de volta. Eles criaram bandas, blocos, pequenas orquestras na rua! São manifestações espontâneas. E o carnaval de rua é hoje, mais uma vez, uma coisa tão marcante, que o poder público quer organizar”, afirma.
Kelly fala com propriedade de quem está na folia há mais de 60 anos, brincando fantasiado ou produzindo músicas para a festa. Há pouco tempo, esteve na Lapa fazendo shows, reduto histórico e boêmio do Rio, e viu jovens sentados nas primeiras mesas.
A atração de Kelly pela música começou cedo. Nasceu João Roberto Esteves Kelly, filho do intelectual e jornalista Celso Kelly. Na sua casa, na Fonte Da Saudade, Lagoa, no Rio de Janeiro, respirava arte, música e letras. Era natural que se interessasse pelo meio artístico. O dom foi aparecendo aos poucos. Lá pelos 11, 12 anos, começou a acompanhar a mãe e a tia com um tamborzinho. Elas desfilavam os clássicos no piano, até que o menino se arriscou nas teclas, ainda de ouvido. Assim que a mãe, Luzia, percebeu que o filho tinha jeito pra coisa, disse: “Intuição é muito bom, mas agora você tem que estudar um pouquinho, piano requer dedicação”. João Roberto ia estudando, no ginásio e fazendo suas primeiras composições. Sambas, marchas, ranchos. Tocava o piano e seu irmão, Fernando, cantava. O irmão foi grande referência na vida do compositor, Kelly o amava muito, e até hoje lamenta sua morte. Os dois faziam boa dupla em festinhas, e Kelly seguia com suas composições, só pra ele. Gostava de inventar letra e música. Com 17 para 18 anos, ingressou na Faculdade de Direito. Até que o produtor teatral Geysa Boscoli tomou conhecimento das composições do filho do Kelly, e pediu que Celso o apresentasse ao filho João Roberto. Kelly foi ao teatrinho Jardel, em Copacabana, e tocou as canções, meio de brincadeira. Geysa adorou. “Meu filho, você é um compositor popular completo. Totalmente feito, e eu vou te dar minha revista pra você musicar. Vamos fazer o seguinte, você termine suas provas na faculdade e em dezembro você volta aqui no teatro. Com base nessas músicas que você fez eu vou escrever uma nova revista”.
E foi assim que, dos 18 para 19 anos, Kelly era o compositor da peça musical “Sputnik no Morro”, título retirado de uma de suas composições – uma marchinha -, que fazia alusão ao lançamento do primeiro satélite tripulado ao espaço. A marchinha era assim:
Agora é chique
Falar de Sputinik
Mas ninguém sabe o mistério da questão
Quando eu pergunto ninguém responde não
Por que botaram uma cachorra ao invés de um cão
A Laica poupa espaço no espaço
E evita tanto embaraço...
Cachorro ia dar alteração
Um poste lá em cima não é sopa não
Kelly compunha e, por ter estudado música, fazia as partituras prontas para serem executadas pela pequena orquestra do teatro, um quarteto. E o espetáculo foi um sucesso.
Nestas primeiras composições, levadas a efeito no Teatrinho Jardel, João Roberto Kelly já revelava os traços de um bom compositor popular: era, como dizem, um cronista de seu tempo, como o foram Noel Rosa, Lamartine Babo, João de Barro, Nássara, Frazão, Roberto Martins. Se está nas ruas, vira samba. Por isso, nos salões, o povo canta. Foi assim com a música tema de “Sputinik no Morro”. Conhecedor como poucos desta fórmula para compor sucessos, Kelly seguiu então na carreira de músico. Sua parceria com a editora musical Irmãos Vitale, que dura até hoje, começa naquele tempo. A editora andava com suas partituras apresentando seus sambas aos artistas, gravadoras, enquanto ele trabalhava musicando espetáculos musicais. Até que, em 1961, veio o primeiro grande sucesso: “Boato”, na voz de Elza Soares, letra e música de Kelly. Depois, ainda neste ano, Elizeth Cardoso gravou “Esmola”, também de autoria de Kelly. E os sucessos não pararam de aparecer.
Foi quando João Roberto Kelly tornou-se também um inovador e pioneiro, desta vez na televisão. Primeiro Kelly era chamado a tomar parte em programas musicais, até que Haroldo Eiras, que tinha um programa da TV Continental, “Ao Encontro da Música” o convidou a ser o diretor musical. Kelly fazia participação fixa com seu piano, acompanhando os cantores convidados. Acostumado a musicar espetáculos teatrais, levou seu talento para a TV, recheando os primeiros programas musicais com arranjos sofisticados, elaborados e, ao mesmo tempo, muito populares. A marca pessoal de suas composições valeu-lhe do crítico e historiador da MPB Osmar Frazão o título de “Cole Porter brasileiro”. Kelly então tinha travado amizade com o também pianista Luís Reis. Luís disse-lhe então que seu parceiro Haroldo Barbosa, que trabalhava como redator na TV Excelsior, afirmara que a emissora andava procurando compositores para programas de TV. Contratado pela Tv Excelsior, Kelly fez com Carlos Manga e Chico Anísio as músicas para o musical “Love Street”, que seria levado a efeito em um teatro da Tv Excelsior em Ipanema. Seria um novo formato de programa. Os atores iriam cantar, dançar, com coreografia profissional, cenários arrojados. Depois que Chico Anísio deixou a produção, Kelly ficou com as músicas, que seriam aproveitadas por Manga em “Times Square”. O programa é, até hoje, considerado um marco na TV brasileira. O enorme sucesso fez com que Manga fizesse, também na TV Excelsior, outro programa: “My Fair Show”. As músicas também eram de Kelly. O compositor não vê diferença entre compor músicas de carnaval para as composições para teatro. “Eu faço com o mesmo prazer, músicas para o meu deleite ou canções de encomenda. Para mim, tanto faz. O importante é dar uma alma aquilo”, avalia. Depois, Kelly foi para a TV Rio, onde musicou também o programa de sucesso “Praça Onze”, quando compôs, com Chico Anysio, outro de seus grandes sucessos, “Rancho da Praça Onze”.
Kelly fazia marchinhas ao mesmo tempo em que trabalhava na TV e em peças de teatro. Até que, numa madrugada no bar São Jorge, na Princesa Isabel, Kelly viveu uma madrugada histórica. Vez por outra ele ia ali, pois no ponto de ônibus em frente ao lugar ficavam as moças que trabalhavam na boate Fredy, e Kelly gostava de olhar as meninas indo para casa. Mas assustou-se ao ver um garçom de cabelos compridos, um ar um tanto estranho. O garçom José Antônio, de longos cabelos, bem ao estilo que a juventude usava, inspirada pelos rapazes dos Beatles, chamou sua atenção. “Eu disse: ih, rapaz, mas você é engraçado demais! Você tem que ser retratado. Se eu fosse um desenhista, faria uma caricatura sua. Mas como eu não sou, eu vou fazer ao meu jeito, que é uma marchinha”. Foi pra casa e fez “Cabeleira do Zezé”. Depois o Roberto Faissal olhou, ajudou na letra, imortalizada na voz de Jorge Goulart. “E o cara não era nada demais, até paquerou umas pequenas por ali e tal”, diz. Consagrava-se naquele momento para o público o compositor de marchinhas de carnaval. Mas, em tom de brincadeira, faz uma advertência. “Todo mundo canta ‘será que ele é, será que ele é...’, essa “bicha!” não é minha não!”. Mas foi consagrado pelos foliões.
E assim foi Kelly, em cada marchinha, uma história. Ele, que até então era conhecido como compositor de “músicas de meio de ano”, isto é, aquelas que não eram feitas para o carnaval, virou o Senhor do Carnaval. Vieram “Joga chave, meu amor” e outro estrondoso êxito nos bailes carnavalescos: “Mulata iê iê iê”, eternizada por Emilinha Borba. Kelly apresentou esta música à Emilinha na TV Rio. Ele e Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que depois iria para a Tv Globo) estavam sentados no bar da TV tomando um cafezinho, esperando o final do programa de Paulo Gracindo, quando Emilinha chegou, cercada de fãs. Ela perguntou se Kelly não tinha nada novo, pois tinha alcançado grande notoriedade com a música interpretada por Jorge Goulart, no ano passado. Ele disse que tinha e, por coincidência, achava que a composição se parecia muito com ela. Cantou: “Mulata bossa nova, caiu no hully gully...”. “Nem canta a segunda parte”, interrompeu Emilinha, “eu vou gravar!”. E depois “Colombina iê iê iê”, tendo David Nasser como parceiro, uma das canções mais populares de 1966. A música é uma homenagem à primeira Miss Brasil mulata, Vera Lúcia Couto. E ainda fez “Boa Camisinha”, “Maria Sapatão”
Kelly não sabe quantas peças musicou. Músicas, são mais de 300. É discípulo de todos os grandes compositores de carnavais, mas gosta de citar um em especial: Haroldo Lobo. “Quando ninguém lembra dele, mas é um dos grandes criadores de marchas de carnaval”, afirma. Para o compositor, este carnaval será igual a tantos outros que passaram: intensa rotina de shows, bailes, entrevistas no rádio e na TV. O segredo, segundo Kelly, é se renovar. Em casa, em Copacabana, o rádio está sempre ligado, e dele o compositor retira a matéria-prima para suas criações. Músicas que são reverenciadas pela novíssima geração do samba. João Roberto Kelly e seu piano podem ser vistos, nos últimos carnavais, em companhia do Monobloco e dos blocos carnavalescos cariocas Boitatá e Céu da Terra, todos formados por jovens músicos admiradores dos antigos carnavais. Suas músicas, redescobertas, foram gravadas por bandas novas como Pedro Luís e A Parede e por Fernanda Abreu.
Para a juventude que vai brincar este carnaval, João Roberto Kelly trouxe uma novidade: a “Marchinha do Obama”, em homenagem ao recém-eleito presidente dos Estados Unidos. Sempre atento, Kelly dá a primeira lição de como fazer uma marcha de sucesso: olho na rua. “Eu achei que a máscara que faria mais sucesso nesse carnaval seria a de Obama, então, fiz a música”, explica. E Kelly a fez com lirismo, romantismo até, além de muito bom humor. Na composição, ele se transforma em um folião, e imagina como seria o encontro entre foliões com máscaras diversas.
Vou sair de Barak Obama
Quero ter quatro dias de fama
Se eu encontrar um Lula por aí
Vai ser bem legal
Só não quero encontrar um Bin Laden
Aí vai acabar meu carnaval!
Depois de cantar a nova composição ao piano, Kelly dá uma sonora gargalhada. E diz: “Marchinha é isso!”. Ainda é, e sempre será, o menino da Fonte da Saudade, animando os bailes com seu tambor embaixo do braço.
Um viva a todas as bossas 2
Continuo e pretendo finalizar neste artigo a discussão que comecei sobre a influência da Boss velha na Bossa Nova, que resolvi citar motivado principalmente pelas comemorações pelos 50 anos da Bossa Nova, que tomam lugar em todo o país, nos jornas, nas TVs, no rádio. Como disse anteriormente, meu principal objetivo não é questionar a qualidade das composições e dos artistas da Bossa Nova, qualquer um que ame a música brasileira pode ter esta intenção, mas apenar informar aos mais jovens, ou aos mais esquecidos, que grande parte dos poetas e músicos que fizeram a Bossa Nova ou surgiram muito antes, ainda na Bossa Velha, ou foram influenciados diretamente pela Velha Guarda da MPB, dos criadores da canção brasileira. É preciso que se diga isso, pois os próprios artistas da Bossa Nova repetiam seus elogios a Pixinguinha e Ary Barroso e outros tantos em todas as entrevistas que davam. Mas quase ninguém cita esta influência de forma clara hoje em dia. É como se o estilo tivesse nascido em um apartamento da Zona Sul carioca.
A juventude de hoje, que curte a Lapa, os chorinhos de Jacob, os sambas de Wilson Batista, Geraldo Pereira, Ismael Silva, Noel Rosa e outros bambas, parece que não tomou conhecimento ou interesse na sagração desse movimento valioso e de efêmera duração, a Bossa Nova.
Então, porque só comemorar os 50 anos da Bossa Nova e não todos os movimentos do cancioneiro popular, como a Tropicália, a Jovem Guarda, os festivais da canção que revelaram Chico Buarque, Taiguara, Milton Nascimento, Edu Lobo, Caetano, Gil, enfim, tudo que significou e continua a glorificar nosso brasileirismo na saudade, na realização e no respeito a literatura malandra do samba e séria dos poetas?
A Bossa Nova não deixou de ser uma iniciativa valorosa, fundamentada nas interpretações de Mário Reis – olha aí, outro da Velha Guarda - cantada por um jovem que também vinha da Velha Guarda, João Gilberto, partícipe do conjunto vocal “Namorados da Lua”, no qual estava ao lado de Lúcio Alves, o maior bossanovista de todos. Não quero dizer com isso que não quero festa. Ao contrário. Loas para Carlos Lyra, Sergio Ricardo, Irmãos Valle, Jonny Half, Leny Andrade, Nara Leão, Pery Ribeiro e sua Garota de Ipanema e para o Vinicius de Moraes da Velha Guarda, das “Louras ou Morenas", pois souberam interpretar o sentimento de sua juventude, ávida em modificar o simbolismo musical de Noel. Vivas para o pré-modernismo de Tom Jobim, que será elevado nesse século ao pódio suburbano brasileiro do Poeta da Vila. O tempo verá tudo!
E o que fazer os movimentos surgidos logo depois, dando-nos músicas bonitas e coroando um rei chamado Roberto Carlos, hoje o nosso “Cantor das Multiões” - com todo o respeito ao filho de dona Balbina - um dos poucos ídolos no mundo a chegar quase aos setenta anos de idade sem um abalo na carreira, resultado do prestígio, distribuído com seus “súditos” Erasmo, Wanderléia, Jerry, Wanderley, Simonal etc.
E o teleco-teco de João Roberto Kelly, de Luiz Reis, e João Nogueira, Billy Blanco? E Martinho, Paulinho da Viola, Ney Lopes e cia? Esses não têm data no calendário. Mas esta foi uma geração desprovida de preconceitos, que trouxe de volta Altamiro Carrilho, Sivuca e outros músicos maravilhosos, todos da Velha Guarda.
Vamos saudar a Bossa Nova, mas que se bata palmas também para as bossas de todos os movimentos. Um viva a todas as bossas!
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No site mantido pelo Centro Cultural Geraldo Pereira (www.geraldopereira.com.br), encontrei a informação de que “Geraldo Theodoro Pereira (1918-1955) é considerado por muitos um dos precursores da bossa-nova”. E o centro cita ainda uma declaração de João Gilberto sobre Geraldo. Com a palavra, João Gilberto:
“Eu era ainda do conjunto Garotos da Lua, nem pensava em cantar sozinho, quando um dia ele me convidou para sentar com ele num bar daqueles na rua da Lapa. Enquanto a gente tava tomando umas coisas no bar, passaram uns sujeitos e me estranharam, ficaram olhando da porta. E ele: “Que é que vocês tão olhando? Isso aqui (era eu) é gente minha!” Os caras foram embora. O samba dele era leve e cheio de divisões rítmicas, isso sempre me chamou atenção. Ele não tinha consciência disso, mas foi um inovador na música popular brasileira na década de 1940.”
Um viva a todas as bossas 1
Este ano, como se diz em todos os lugares, é o ano da Bossa Nova. É por isso mesmo que eu preciso dizer, mesmo contrariando o clima de euforia e de toda a festa, que é hora de anunciar: viva a Bossa Velha!
Longe de mim dizer que a Bossa Nova não merece elogios. Quem pode deixar de admirar a poesia de Vinicius de Moraes, o piano de Tom Jobim, o violão de João Gilberto. Mas é preciso ter a medida certa das coisas. E, o mais importante, é preciso deixar claro para a geração de ouvintes que surge agora que a música brasileira não começou com a Bossa Nova. E muito antes da Bossa Nova, o nosso país já tinha brilhado no exterior, graças a seus talentos da música, isso também não foi mérito exclusivo dos bossa-novistas. Carmem Miranda já tinha feito o mesmo sucesso, ou certamente maior. Ary Barroso também era reconhecido pelo meio artístico e pelo público americano de sua geração como compositor popular de muito talento. Isso para não falar em Pixinguinha, que ainda em 1922, embarcou no vapor Massilia para uma excursão na Europa, que começaria por Paris. A aventura foi patrocinada por Arnaldo Guinle, integrante da alta sociedade carioca que era totalmente apaixonado pela música do mestre Pixinguinha. O grupo estréia no cabaré Scheherazade para uma temporada de um mês, mas o sucesso foi estrondoso, e a as apresentações foram prorrogadas para seis meses. É preciso lembrar disso, para fazer justiça, e para entender porque Tom Jobim e Vinicius de Moraes consideravam uma honra posar ao lado de Pixinguinha e outros da Velha Guarda. Eles próprios fizeram parte da Bossa Velha. Enaltecer nossa música é sempre importante, mas vamos colocar as coisas em seus devidos lugares.
A Bossa Velha, ou aqueles músicos do início do século 20, que formaram a música popular brasileira, mãe de todas essas aptidões musicais, entre elas a Bossa Nova, sequer é lembrada quando se trata de elogiar a música popular brasileira.
A cinqüentenária Bossa Nova, que redescobriu o grande poeta Vinicius de Moraes para nosso cancioneiro e o tem como emblema dessa geração emergente nascida na Zona Sul do Rio de Janeiro no fim da década de 50, tem sua origem da Velha Guarda de 1933.
Tom Jobim, vanguardista na escalada musical do tempo, fez-se presente valorizando com seu enorme talento esses que chegaram com o seu canto definido e definitivo na canção popular, como acontecera com Ary Barroso, Lamartine Babo, Custódio Mesquita, Noel, trinta anos antes. A fonte de inspiração da Bossa Nova é a Bossa Velha. No entanto, não há data no calendário musical para render homenagens a todos os seus talentos.
Pois a Bossa Velha é o retrato original da música brasileira, criada pelos rapazes que nasceram na “zona norte da cidade, residência da saudade”, onde nasceram seus cantores e seus autores que nos deram formidáveis poemas subtraídos das canetas de Orestes Barbosa, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Faraj, Herivelto Martins, João de Barro e conduzidas ao sucesso nas vozes de Francisco Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Ciro Monteiro e outros intérpretes que mantiveram esse vigor musical por mais de três décadas, com passagens magníficas, registradas em discos quebráveis, emissoras de rádio AM audíveis, em jornais e revistas importantes, causando-nos as mais eloqüentes emoções.
O tema é longo e bastante oportuno nestes tempos em que se fala tanto sobre a Bossa Nova e seu inegável êxito, por isso merece uma seqüência, e ela virá em meu próximo artigo.
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Há muitas histórias de bons intérpretes da MPB envolvidos com submundos violentos, com brigas, confusões. Talvez os mais conhecidos sejam Geraldo Pereira e Wilson Batista, símbolos da boemia da Lapa, de suas sinucas, da malandragem marginal do Rio do início do século 20, que tantos bons sambas nos deixaram. Geraldo Pereira e Wilson Batista viveram este mundo de navalhas, de mulheres e de brigas e dele nos tiraram poesia e música de primeira.
Mas há também os sambistas que representavam o oposto dos valentões. Exemplo: Noel Rosa. De tipo franzino, magro, boêmio, sensível, Noel não era do tipo que encarava uma briga. Noel era muito mais por uma linda mulher, uma cerveja bem gelada e uma noite calorosa.
Pois uma vez Noel Rosa levou um soco de Zé Pretinho, na rádio Cruzeiro do Sul. E não reagiu, claro. Noel era inteligente, sabia que as chances de vencer uma briga com seu tipo físico não eram muitas. Mas sua resposta veio, e isso ele sabia fazer como ninguém, em forma de poesia e música. Para o fato, Noel compôs um samba, "Século do Progresso". A música foi gravada, com grande sucesso, por sua melhor intérprete, Aracy de Almeida, e também Mário Reis, e Nelson Gonçalves,e depois por Elizeth Cardoso, e outras mais, sempre com muito sucesso. Diz assim:
A noite estava estrelada Quando a roda se formou A lua veio atrasada E o samba começou
Um tiro a pouca distância No espaço forte ecoou Mas ninguém deu importância E o samba continuou
Entretanto ali bem perto Morria de um tiro certo Um valente muito sério Professor dos desacatos Que ensinava aos pacatos O rumo do cemitério
Chegou alguém apressado Naquele samba animado Que cantando dizia assim: No século do progresso O revólver teve ingresso Pra acabar com a valentia
Um tiro a pouca distância...
Vitória de Noel, por nocaute.
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