Esta página foi escrita em homenagem a um dos maiores poetas que o Brasil já teve. E também a um dos mais inspirados violonistas do país. também a um de nossos mais dedicados compositores: Noel Rosa, cujo amor pela música e pela vida eram eternos. Ao fundo, mais de uma hora e meia com alguns dos maiores sucessos de Noel, para reverenciar, rir e aproveitar muito a sua obra.
O melhor pipeiro da Vila
Noel era um gozador, um boa praça, um romântico e um excelente violonista. Além disso tudo, era um poeta popular de mão cheia. O resultado da mistura destes elementos é a obra de um dos maiores compositores brasileiros, Noel Rosa, que tem o centenário muito festejado este ano.

Noel foi, já disseram muitos, um renovador da linguagem musical. Na letra e na melodia. Com ele, saem de cena as harmonias rebuscadas, as doloridas valsas e outros ritmos mais sofridos e entram o deboche, o humor, um jeito de olhar a vida mais à vontade, entre a resignação e a astúcia, entre a paixão e a malandragem. Um jeito sábio, da sabedoria popular. Daqueles que sabem que, atrás de um amor sempre vem outro.
Que não se pode entender as mulheres, que é inútil sofrer por amor, que é preciso viver paixões, mas também deve-se pagar ao judeu do bairro. Noel abandonou os termos rebuscados das letras dos seresteiros tradicionais, como Catulo da Paixão Cearense, Cândido das Neves e Uriel Lourival, e adotou o linguajar da turma da Vila, da Penha, do Catumbi, da Lapa, da gente da rua. Fez uma ode aos botequins. Revolucionou a música na forma e na mensagem.

Noel de Medeiros Rosa nasceu no boêmio e romântico bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, que sempre deu acolhida a grandes sambistas. Tendo o rosto deformado por problemas no parto, tinha tudo para ser introspectivo e depressivo. Ao contrário: era o mais piadista e levado da turma do bairro. Namorador, atirado, impertinente. Deixou de cabelos brancos os padres reitores beneditinos do Colégio São Bento, onde estudou e no qual só conseguiu se formar por força de um decreto de Getúlio. Noel era da noite, da vadiagem, da Lapa. Queria ser malandro, mas nunca conseguiu. Mas cantou a malandragem como poucos.
Eu devo, não quero negar, mas te pagarei quando puder
Se o jogo permitir, se a polícia consentir e se Deus quiser...
Não pensa que eu fui ingrato, nem que fiz triste papel,
Hoje vi que o medo é o fato e eu não quero um pugilato
Com seu velho coronel
(letra de “Malandro Medroso”, de Noel)

Encontrou a morte pela tuberculose. Mas até que ela retirasse toda sua força de viver, Noel amou, casou com Lindaura, bebeu e experimentou a vida em todas as suas faces. Sua biografia pode ser encontrada com fartura em toda a rede. Porém, algumas das palavras mais acertadas para definir Noel tenham sido ditas por Jacy Pacheco, no livro “Noel Rosa e sua época”, de 1954: “Noel era o mais hábil soltador de balões e papagaios da Rua Teodoro da Silva”.
Esse era Noel, que nos deixou, em uma de suas últimas composições, talvez a sua derradeira mensagem, já debilitado, perto da morte, maduro, reflexivo, um tanto triste. Na música “João Ninguém”, o que aprendera na vida:
João Ninguém
Que não é velho nem moço
Come bastante no almoço
Pra se esquecer do jantar...
Num vão de escada
Fez a sua moradia
Sem pensar na gritaria
Que vem do primeiro andar
João Ninguém
Não trabalha e é dos tais
Mas joga sem ter vintém
E fuma Liberty Ovais
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião
João Ninguém
Não tem ideal na vida
Além de casa e comida
Tem seus amores também
E muita gente que ostenta luxo e vaidade
Não goza a felicidade
Que goza João Ninguém!
João Ninguém não trabalha um só minuto
E vive sem ter vintém
E anda a fumar charuto
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião